No dia 27 de março de 2011, Rogério Ceni alcançava seu 100º gol na carreira – todos vestindo a camisa tricolor – vencendo por 2 a 1 o clássico contra o Corinthians realizado na Arena Barueri pelo Campeonato Paulista.

Nunca na história um goleiro havia chegado a tal marca e esse recorde perdura até os dias de hoje: 100 gols como goleiro em sua carreira profissional!
Antes do jogo, a expectativa pelo que poderia ser um feito histórico tomava conta de todos: “O torcedor tem todo o direito de criar expectativa. Mas não sabemos o que vem pela frente. Se não me engano, já fiquei quatro jogos nesse ano sem cobrar falta. O que sei é que o torcedor espera a vitória”, comentou Ceni.
Fernandinho preferiu exaltar a marca e disse estar preparado para ajudar dentro de campo: “Estou preparadíssimo para sofrer falta ou pênalti. Quero ajudar o Rogério a conquistar mais essa marca, que ficará registrada não só na vida dele, mas na de todos que estarão presentes”.
Antes de subir para o segundo tempo, poucos minutos antes da falta que daria origem ao gol, em breve conversa, Ceni incentivava os companheiros: “O relógio não é contra a gente, o relógio é contra eles. Nós não vamos jogar o jogo, nós vamos ganhar a p. do jogo. 1, 2, 3 São Paulo!”
O feito, tão grandioso, forçou a Rede Globo a dividir a tela da transmissão para mostrar o centésimo gol em outros estados que não estavam televisionando o Majestoso. O lance foi eternizado (em TV aberta) na voz de Cléber Machado: Partiu Rogério, pé direito na bola… passou pela barreira! Gol! Rogério, do São Paulo! Chega a 100 gols na carreira. É um cara que tem estrela e liderança, com o nome escrito na história do futebol!”

Após o apito final, Ceni, em êxtase, foi cercado por um mar de jornalistas e respondeu algumas perguntas sobre o sentimento de estar alcançando tal feito: “Estou feliz pra caramba. Fiquei feliz no meu primeiro gol como profissional e continuo feliz. A espera foi supernatural. Em um jogo como esse, uma vitória assim tem de ser muito comemorada!”
Ao ser questionado sobre as mudanças ocorridas desde 1997, ano de seu primeiro gol, e sobre os treinadores passados, Ceni respondeu com bom humor: “Sim, eu tinha mais cabelo, não havia internet, não havia tanta cobertura tão grande do futebol”.
E completou: “Eu aprendi uma coisa com o Mário Sérgio, que é importante ter hierarquia dentro de uma empresa. Não foi bom para mim, mas foi bom para entender aqueles que mandam. O Roberto Rojas sempre foi um grande apoiador. O Muricy não posso deixar de citar porque teve a personalidade de deixar eu efetuar a minha primeira cobrança. O Carpegiani era o treinador na primeira vez em que eu fiz dois gols em uma mesma partida”.
Prestes a deixar o gramado, Rogério ainda encontrou espaço para exaltar a torcida tricolor e declarou apoio ao São Paulo, que na época passava por desentendimentos com a CBF, que viriam a causar o fim do “Clube dos 13” e a unificação dos títulos brasileiros, à revelia: “O centésimo gol, essa vitória é para toda a nação são-paulina. Talvez para a entidade São Paulo Futebol Clube, que luta contra tanta coisa ruim no futebol”.
Logo depois, em entrevista coletiva, Rogério comentou sobre o feito com mais calma e mostrou experiência e confiança: “Fui com muita convicção para a cobrança, muito concentrado. Não poderia ter sido melhor. As coisas não acontecem por acaso. Faz 15 anos que me dedico para isto”.

O treinador Paulo César Carpegiani, que já havia treinado o São Paulo em 1999, exaltou a preparação de Ceni: “O Rogério é predestinado, pois teve a condição de fazer um gol, o centésimo, num clássico. Fico muito feliz por esse momento.
Entre os rivais, ficou a estigma de sofrerem com o centésimo gol de Ceni. O goleiro e treinador adversários deixaram transparecer a chateação pela derrota e pelo histórico lance sofrido: “Não queria ter sofrido este gol. Fiquei mais triste por ter perdido o jogo do que ter levado. Parabéns ao Rogério”. Disse Júlio Cesar, arqueiro alvinegro.
“A marca é histórica. O Rogério deve se orgulhar por essa trajetória. Mesmo com a derrota, parabéns”. Completou Tite, treinador rival.
A mídia, obviamente, não deixou de repercutir o fato, inclusive internacionalmente. Na Itália, destacou a “La Gazzetta dello Sport” a manchete “Ceni, um goleiro na história, gol número 100 com o São Paulo”. Já na Inglaterra, no “The Daily Mail”, Rogério foi chamado de “Quebrador de Recordes” e o jornal enfatizou que a marca foi alcançada contra um de seus maiores rivais.
O gol de Ceni marcou a carreira de muitos narradores. Nilson César, que narrou o jogo pela Jovem Pan, anos depois comentou sobre a experiência de ter sido uma das vozes desse jogo tão importante na história do futebol: “Esse foi o gol mais importante e marcante que eu narrei, eu tenho a sensação de que nunca mais um goleiro fará 100 gols”.

Em entrevista para o Globo Esporte, Ceni comentou emocionado sobre o feito e exaltou a torcida tricolor: “O que posso te dizer é quem levou aquela bola ao gol foi o pensamento positivo, foi a fé de cada torcedor presente ou não naquele estádio… as vezes existe o trabalho, a dedicação, a repetição, mas as vezes existem algumas coisas divinas para acontecer e sem dúvida, quem levou a bola até o gol não foi o meu pé, foi o torcedor são-paulino”.
Depois daquele dia 27 de março de 2011, Ceni ainda marcaria outras 31 vezes em sua carreira, se isolando ainda mais como goleiro com mais gols na história do futebol – recorde esse que dura até os dias de hoje, algo quase inalcançável –, e ficando marcado na memória de todos, principalmente na dos torcedores que puderam presenciar de perto essa marca tão importante.
Por Arquivo Histórico João Farah