São Paulo F.C



A estreia de Leônidas, o primeiro Majestoso e o recorde do Pacaembu

O início da carreira do craque com a camisa são-paulina estabeleceu uma marca que permanece até os dias de hoje

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Por A Gazeta Esportiva - O time do Tricolor na estreia de Leônidas da Silva

Leônidas da Silva estreou pelo Tricolor em um clássico e em um Pacaembu lotado! Superando todos os adversários e todas as desconfianças, ele transformou o São Paulo em um dos grandes clubes do Brasil. Conheça, abaixo, um pouco mais da trajetória do grande craque que levou uma multidão para vê-lo com a camisa são-paulina pela primeira vez, no jogo em que o público presente até hoje é recorde do estádio e onde nasceu o apelido Majestoso para representar o confronto entre tricolores e corintianos.

 

A CHEGADA DO ÍDOLO

O Diamante Negro foi anunciado como jogador do São Paulo via rádio no dia 1º de abril de 1942 ao custo de uma transferência no valor de 200 contos de réis. Uma verdadeira fortuna (para se ter ideia, a loteria federal – prêmio máximo à época – do dia 4 de abril era no montante de 300 contos). Ou seja, da mesma forma que ninguém acreditava ganhar na loteria, ninguém acreditou que Leônidas havia sido contratado de fato.

A dificuldade de aceitação não se dava somente pela quantia de dinheiro envolvida – então a maior negociação da história do futebol sul-americano –, mas pelo fato de que, ainda que Leônidas fosse o melhor jogador brasileiro em todos os tempos, tendo levado a Seleção à semifinal da Copa do Mundo na França, em 1938, se tornado artilheiro da competição e conquistado o apelido de Homem-Borracha pela sua extrema habilidade com a bola nos pés, o craque estava sem atuar nos gramados, de modo oficial, há quase um ano.

Por problemas legais com a junta de serviço militar, o atleta ficou afastado do Flamengo e muitos consideravam que ele já estava acabado para o futebol. Contudo, Leônidas ainda era Leônidas, o que para aquele período significava ser o homem mais famoso do país, superando até mesmo Getúlio Vargas e ficando atrás somente, e talvez, de figuras quase mitológicas, como santos e afins.

Como uma verdadeira estrela de cinema (aliás, em 1951 o jogador chegou a realmente atuar nas telas de cinema, no filme Suzana e o Presidente), Leônidas foi o primeiro atleta brasileira a virar garoto propaganda. Não foi de se estranhar, então, todo o inusitado dessa contratação.

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Mas, quando “a ficha caiu”, também não foi de espantar a tremenda recepção que o jogador teve, por parte dos são-paulinos e da população em geral, quando no dia 10 de abril, às 20h, chegou à cidade de São Paulo e, na velha Estação do Norte, no Brás, foi carregado nos ombros por uma multidão de mais de dez mil pessoas que o conduziram até a sede do Tricolor, na Rua Dom José de Barros.

Reza a lenda que, uma senhora dos arredores, ao ver tamanha comitiva a desfilar pelas ruas da cidade, teria dito, impressionada: “Mas será o Benedito? ”. Imaginando tratar-se de uma procissão. A frase, posteriormente, se tornaria uma expressão popular.

Leônidas, contudo – e como era de se esperar – estava fora de forma e longe de condições de poder estrear tão prontamente pelo clube. A comissão técnica e os dirigentes do Tricolor prepararam, então, um cronograma, um plano de metas e uma dieta especial (com a primeira nutricionista contratada por um clube de futebol no Brasil) para recuperar o físico do atleta. Por mais de um mês, o craque passou por um condicionamento pesado, que envolvia até mesmo treinamento com pesadas malhas de lã sob sol a pino.

O Diamante Negro poderia ter retomado o ritmo de jogo atuando em partidas menores, mas todos envolvidos, inclusive o próprio jogador, queriam mostrar logo que Leônidas estava apto e nada melhor que um clássico para tirar quaisquer resquícios de dúvidas ou suspeitas sobre a qualidade e o empenho

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O INÍCIO DE UMA NOVA ERA

Então, no dia 24 de maio, no Pacaembu, em uma partida entre São Paulo e Corinthians, Leônidas estreou no Tricolor e revolucionou não somente o clube, mas o futebol brasileiro como um todo, despertando um novo gigante nacional deste esporte.

Mas até mesmo gigantes devem dar um passo de cada vez, e tudo começou naquele Estádio Municipal de São Paulo lotado com mais de 70 mil pessoas (71.281, mais precisamente falando – marca que é o recorde do Pacaembu até hoje). A renda bruta alcançada foi de 244:414$000 e a líquida, de 151:857$500. Desta forma, com apenas um jogo, o São Paulo arrecadou 38% (75:928$700 - a outra metada coube ao Corinthians) daquilo que investiu na contratação de Leônidas da Silva (200:000$000). 

O jogo transcorreu muito aguerrido e movimentado, com Leônidas sempre marcado de perto por Brandão – ainda assim, o centroavante conseguiu encontrar espaço para fornecer a assistência para o gol de Lola, o primeiro do São Paulo no jogo. O Tricolor, que chegara a ficar atrás no marcador por duas vezes, virou o placar aos 36 minutos da etapa final com Teixeirinha.

Contudo, faltando dois minutos para o fim da partida, o Corinthians empatou com Servílio. 3 a 3. Apesar da boa estreia, em termos de movimentação e participação em gols, a imprensa, de modo geral, condenou a atuação e a contratação de Leônidas. Rapidamente se espalhou pela cidade, como rastilho de pólvora, que o atacante era um “bonde de 200 contos” e que, se Leônidas era um diamante negro, este teria sido roubado e encontrado no bolso do marcador adversário.

Essa reação enervou tanto Leônidas, que guardou um rancor tão profundo em seu âmago, que ele prometeu a si mesmo, e a todos, que jamais seria questionado novamente por uma partida contra aquele rival. Nas palavras do próprio: “Se, de um lado, essas críticas me atingiram, certamente serviram-me de estímulo maior, tocando em meus brios de atleta e de homem e fazendo-me reagir para contraria os incrédulos e justificar a confiança dos que me haviam contratado.”.

Dito e feito. Até aposentar-se dos gramados, Leônidas voltou a atuar em 19 majestosos, do qual saiu vitorioso em 10, sem perder em outros quatro e marcando 11 gols!

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NASCE O MAJESTOSO

Na segunda-feira (25), após o jogo, o jornal A Gazeta Esportiva estampou na capa o título "Choque Majestoso!" por causa do fato de que qualquer um dos dois times poderia ter vencido aquela partida, disputada com galhardia, combatividade e com viradas no placar. Foi a primeira vez que se referiam, desta maneira, ao confronto entre São Paulo e Corinthians. 

No clássico seguinte, em 5 de julho, pela Taça Cidade de São Paulo, o apelido não foi lembrado. Parece ter se perpetuado, porém, no jogo do returno do Campeonato Paulista, dia 30 de agosto, em que o Tricolor venceu o rival por 4 a 2 (dois gols de Waldemar de Brito, um de Leônidas e outro de Pardal). A manchete da vitória ainda dizia "Choque Majestoso", embora, no decorrer do texto já surgisse a versão abreviada. 

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FICHA DO JOGO

CORINTHIANS 3 X 3 SÃO PAULO

Competição: Campeonato Paulista de 1942 - 1º Turno
Data: 24 de maio de 1942
Local: São Paulo (SP) Estádio Municipal de São Paulo - Pacaembu
Árbitro: Jorge Gomes de Lima "Joreca" (futuro técnico do São Paulo)
Renda: 244:414$000 Réis
Público: 71.281 pagantes

SPFC: Doutor; Fiorotti e Virgílio; Waldemar Zaclis, Lola e Silva; Luizinho, Waldemar de Brito, Leônidas, Teixeirinha e Pardal. Capitão: Fiorotti. Técnico: Conrado Ross

Gols: Lola, 30/1; Luizinho, 15/2; Teixeirinha, 36/2

Rival: Joel; Agostinho e Chico Preto; Jango, Brandão e Dino; Jerônimo, Milani, Servílio, Eduardinho e Hércules. Técnico: Rato

Gols: Jerônimo, 10/1; Servílio, 3/2; Servílio, 43/2

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Agradecimentos a Felipe de Queiroz pela dica sobre o nascimento do termo "Majestoso".