São Paulo F.C



O São Paulo contra o Uruguai

Em 11 de maio de 1974, o Tricolor venceu a Celeste com um gol de Pedro Rocha

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Por Arquivo Histórico SPFC - Pedro Rocha marcando gol decisivo contra o Uruguai

Estimativas apontam que os torcedores são-paulinos são entre 16 e 18 milhões de pessoas em todo o Brasil. Um público maior que populações de muitos países. Não é estranho pensar, então, que o Tricolor tenha muita história contra Seleções Nacionais. Neste especial de Copa do Mundo selecionamos algumas passagens de jogos do clube contra países que, hoje, muito possuem em comum com o São Paulo.

A terceira história que abordamos é de uma partida contra o Uruguai, seleção que tem como ponto de concentração da torcida durante a Copa do Mundo de 2014  o restaurante Copa, no Estádio do Morumbi.

 

ANTES DA BOLA ROLAR

Faltando poucos dias para a Copa do Mundo de 1974, a Seleção do Uruguai solicitou ao São Paulo a liberação de Forlán e Pedro Rocha para concentração e amistosos preparativos. Por essa cessão, a associação uruguaia e o Tricolor combinaram um jogo amistoso beneficente no Estádio Centenário, em Montevidéu.

O São Paulo vinha embalado, estava invicto há 18 jogos. Não sabia o que era derrota desde fevereiro, quando perdeu por 1 a 0 para o Cruzeiro, no Mineirão. Havia acabado de vencer o Jorge Wilstermann, em casa, por 5 a 0, em jogo valendo pela Copa Libertadores da América, onde liderava o seu grupo - naquela temporada o São Paulo foi vice-campeão da competição.

A delegação embarcou para o país vizinho no dia 9 de maio. Lá, ainda teriam tempo para um treinamento físico e para Poy decidir a escalação. O Tricolor estava desfalcado de Terto, Ademir e Paranhos, que nem viajaram. Piau estava com os olhos inflamados e também não era certo que jogasse. 

Na capital uruguaia, os dirigentes locais tentaram convencer a comitiva tricolor a deixar Pedro Rocha e Forlán atuarem pela Celeste, ou ao menos um tempo de jogo em cada time. Não houve acordo: jogariam pelo Tricolor, inclusive Forlán, que já havia se apresentado à seleção, e mesmo entrado em campo contra a Irlanda.

O ADVERSÁRIO

O Uruguai, cabeça de chave da Copa do Mundo daquele ano por ter sido semifinalista da competição em 1970, havia vencido a Seleção da Irlanda, no dia 8 de maio, em casa, por 2 a 0, com dois gols de Morena. Era a oitava partida preparatória da equipe, mas somente a primeira de Forlán junto a eles.

Os destaques daquele time uruguaio eram, além de Rocha e Forlán, o goleiro Mazurkiewicz, do Atlético Mineiro, os meias Cubilla e Castillo (esses não atuariam no amistoso), além do lateral Pavoni - que faria o único gol da Celeste na Copa do Mundo daquele ano.  

A equipe não era unanimidade no Uruguai (e como os resultados da Copa viriam a demonstrar, com razão) e também por isso a imprensa local aprovou a realização do amistoso contra o forte Tricolor, afirmando que seria o teste ideal e mais difícil de toda a preparação da Celeste. A expectativa para o jogo foi grande. Mobilizada, a torcida adversária lotou o Estádio Centenário: 55 mil pagantes, mais de 70 mil presentes.

O ESPÍRITO

Imagine, caro leitor, a seguinte situação: Você é um jogador profissional, capitão da equipe. O jogo que se desenrola acontece no principal estádio de seu país, local que sempre considerou um verdadeiro templo de fé. Lotado, a torcida em polvorosa. Os times que se digladiam são muito bem conhecidos por você. Um deles é a seleção de sua terra natal. O outro, um clube que passou a amar e a respeitar absolutamente.

Pense que o manto que veste não é o de sua pátria, mas sim o deste clube, e que com esta camisa, suada por verdadeira garra, marque o gol da vitória de sua equipe contra a de seus conterrâneos, calando por breves segundos a todos presentes, até que uma majestosa salva de palmas rompe gradativamente o silêncio sagrado.

Agora, amigo, deixe de imaginar. Isso foi real. E ilustra bem o dom de se vestir uma camisa como se fosse sua pele. Dom dos uruguaios Pedro Rocha e Pablon Forlán.

(trecho republicado de  Sangue Celeste, Alma Tricolor)

O JOGO

"Emoção desde o início" - Essa foi a chamada da reportagem do O Estado de São Paulo, de 12 de maio, sobre o jogo ocorrido no dia anterior, em Montevidéu. Destaca ainda que o jogo foi "definido como 'empolgante' pelos próprios comentaristas locais". Foi muito mais que isso.

Logo aos três minutos de bola rolando, Waldir Peres fez uma defesa espetacular após o chute do lateral Pavoni. O São Paulo se acertou em campo, porém, e com um toque de bola cadenciado passou a controlar a partida.

O Tricolor atuava em um '4-2-4 clássico', da época, para tentar furar o sistema uruguaio que, apesar de fortemente defensivo, não impedia que ameaçassem a meta do goleiro são-paulino. O primeiro tempo chegou ao fim sem os zeros deixarem o placar, mas não por falta de oportunidades dos dois lados.

Pouco após o recomeço do jogo, aos três minutos, o lance decisivo da partida, o momento épico e inesquecível para quem lá esteve presente: Pablo Forlán lançou a bola para Pedro Rocha, que avançou adentro da área da Celeste, cara a cara com o goleiro, e a desviou sutilmente para o fundo do gol. Gol do São Paulo, gols dos uruguaios do Tricolor!

Após o minuto de silêncio e a salva de palmas decorrente, o restante do jogo passou ofuscado. O Uruguai partiu desesperadamente ao ataque, mas todos foram contidos pela defesa são-paulina, principalmente pelo goleiro Waldir Peres. Mesmo a expulsão de Gilberto, ao fim do jogo, não pôs risco ao placar.

No dia seguinte à partida, os jornais uruguaios destacavam o valor do embate e o desempenho do São Paulo, "digno representante da escola brasileira", mas principalmente a atuação de Pedro Rocha, naquele dia em que o capitão marcou um gol contra a própria pátria. 

 

SELEÇÃO DO URUGUAI 0 x 1 SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE

Local: Estádio Centenário, em Montevidéu (Uruguai)
Data: 11/05/1974 (sábado), 16h
Renda: Pesos 50.000.000,00
Público: 55.000 pagantes, +70.000 presentes
Cartão Vermelho: Gilberto Sorriso

SPFC: Waldir Peres; Pablo Forlán (Nelson), Samuel, Arlindo e Gilberto Sorriso; Chicão e Pedro Rocha; Mauro Madureira, Mirandinha, Zé Carlos e Piau (Teodoro). Técnico: José Poy.

Gol: Pedro Rocha, 3min/2ºT

Uruguai: Hector Santos, Mario Gonzalez, De Simone, Masnik, Pavoni, Cardaccio (Rivero), Gomes, Jimenez, Morena, Mantegazza, Corbo (Millar). Técnico: Roberto Portada.