São Paulo F.C



O São Paulo contra os Estados Unidos

Em 1930, o Tricolor enfrentou a seleção norte-americana e venceu por 5 a 3

Estimativas apontam que os torcedores são-paulinos são entre 16 e 18 milhões de pessoas em todo o Brasil. Um público maior que populações de muitos países. Não é estranho pensar, então, que o Tricolor tenha muita história contra seleções nacionais. Neste especial de Copa do Mundo selecionamos algumas passagens de jogos do clube contra países que, hoje, muito possuem em comum com o São Paulo.

A primeira história é de uma partida contra os Estados Unidos, seleção hospedada no Centro de Treinamento da Barra Funda para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

 

A PROIBIÇÃO

Essa partida quase não foi realizada. Em verdade, foram dois jogos contratados pelo Tricolor: Um entre o São Paulo e a Seleção dos Estados Unidos, no dia 10 de agosto de 1930, e o outro entre os visitantes e a Seleção Paulista, no dia 13. Os encontros foram combinados e acertados antes mesmo da realização do Mundial. Mas pouco depois da equipe tricolor publicar a pretensão, a CBD informou à APEA (federação paulista) e ao São Paulo que essas duas partidas estavam proibidas de acontecer.

Tudo por causa do imbróglio que impediu também que os jogadores paulistas disputassem a Copa do Mundo daquele ano. A APEA, por discordâncias políticas e rixas com a federação carioca, impediu os jogadores a ela filiados de participar daquela competição. Em resposta a isso, a FIFA, através da CBD, suspendeu a federação paulista de qualquer programação ou participação em partidas envolvendo entidades alheias à própria APEA. A situação afetaria também os convidados: Caso jogasse, a Seleção dos Estados Unidos poderia ser multada ou expulsa do quadro da FIFA.

Os norte-americanos, que chegaram à cidade de Santos no navio "Cap Arcona Norte" diretamente do Uruguai, convidaram os dirigentes são-paulinos Cunha Bueno e Luiz de Barros àquela cidade para que se fosse resolvido esse impasse, contornando-se a proibição da FIFA/CBD.  

 

A SOLUÇÃO

A conclusão de tal reunião foi a seguinte: A seleção norte-americana arcaria com qualquer punição que a FIFA lhe impusesse: multa ou desfiliação (os jornais chegaram a publicar que os estrangeiros não davam grande valor à federação internacional). Vale dizer também que os cariocas também tinham contratos com eles e ameaçavam rompê-los, caso jogassem aqui.

Tudo acertado (de novo), o São Paulo pôs à venda ingressos nos valores de 15$000 para numeradas, 6$000 para arquibancadas e 3$000 para as gerais da Chácara da Floresta. Na preliminar, o segundo quadro do Tricolor empatou com o time equivalente da Portuguesa por um gol.

 

O ADVERSÁRIO

A Seleção dos Estados Unidos foi a maior surpresa da primeira Copa do Mundo. Na primeira fase do torneio venceu a Bélgica (considerada a mais forte seleção europeia lá presente), por 3 a 0, e o Paraguai (vice-campeão sul-americano em 1929), pelo mesmo placar. Nas semifinais, contudo, caíram frente aos argentinos por 6 a 1.

A equipe yankee era formada, basicamente, por jogadores britânicos naturalizados (Alexander Wood, James Gallagher, Andrew Auld, James Brown, Bart McGhee, escoceses, e George Moorhouse, inglês). Mas os pratas-da-casa não faziam feio. O goleiro, James Douglas, era um veterano com duas Olimpíadas nas costas e Bert Patenaude foi o terceiro maior goleador da Copa do Mundo, com 4 gols.

Um fato que deve ter pesado contra a Seleção, além do desgaste da viagem de navio, foi a decisão de jogarem com o Santos (filiado a APEA, mas também a ASEA, associação santista), um dia antes, no dia 9. Empataram em 3 a 3.

 

O INUSITADO

Minutos antes de começar o jogo, o São Paulo foi informado que o uniforme dos Estados Unidos era da mesma cor que o do mandante. Por cortesia, o São Paulo trocou de vestimenta, o que provocou certo atraso para o começo da partida.

Foi assim que o São Paulo entrou no gramado com a camisa da Associação Athlética das Palmeiras (um dos times que deu origem ao clube, poucos meses antes). A camisa da AA das Palmeiras era negra, com um emblema e sigla do clube ao lado esquerdo do peito e as mangas e gola eram brancas.

Uma outra versão (não verificada por documentos) para o motivo do Tricolor jogar com outra camisa envolveria o receio do São Paulo ser punido pela CBD. Para escapar a qualquer sanção, os diretores do Tricolor teriam apostado em uma ideia ousada: o São Paulo jogaria com as camisas da finada progenitora pois, considerada extinta, não se encontrava ela federada à APEA, estando, dessa forma, livre para jogar com os norte-americanos.

Ao menos essa seria, em caso de problemas (que nunca aconteceram, de fato), a suposta justificativa.

 

O JOGO

Às 16h10 começou a partida apitada por Attílio Grimaldi. Logo aos 30 segundos, após cruzamento de Romeu e cabeceio de Friedenreich, Armandinho ajeitou e tocou a bola para o fundo do gol. 1 a 0.

Os norte-americanos partiram para o ataque, provocando defesas de Nestor e falhas na defesa são-paulina. Em uma delas, aos 6 minutos, após levantamento de Patenaude, ainda do meio-campo, Barthô trombou com o goleiro e o atacante adversário. A bola rolou mansa para dentro da meta tricolor. 1 a 1.

Não tardou e o Tricolor desempatou mais uma vez a partida. Novamente Romeu começou a jogada: desarmou o oponente e, driblando Gallagher e Wood, cruzou para Friedenreich escorar, de cabeça, para as redes do goleiro Douglas. São Paulo 2 a 1.

A disputa tornou o jogo um tanto quanto violento. Os zagueiros das duas equipes apresentaram contusões mas se recusaram deixar o campo. Aos 17 minutos, Luizinho arrancou pela ponta direita e tocou para o centro-avante Friedenreich marcar, com um forte chute, o terceiro do time da casa. 3 a 1.

Aos 21 minutos de jogo, Bino tocou para Luizinho e esse passou para Siriri que encontrou Friedenreich desmarcado, mas a 20 metros de distância do gol. Sem perder tempo, Fried arrematou para o gol. Douglas ainda tentou defender, espalmando, mas a bola balançou as redes. 4 a 1.  

Wood, contundido, enfim aceitou a substituição e Vaughn entrou no jogo. A seguir, em escanteio do lado esquerdo do goleiro e cobrado por Florie, Brown pulou sozinho e cabeceou livre, diminuindo o placar. Agora, 4 a 2 para o Tricolor.

A bola só voltou a estufar as redes novamente no segundo tempo. Aos 15 minutos da etapa final, Siriri e Luizinho tabelaram pela direita e o primeiro cruzou para área, onde Romeu ajeitou, por um momento quase perdendo o controle da bola, e chutou alto no gol adversário. Era o quinto gol do São Paulo no jogo.

Três minutos depois, Brown lançou Patenaude em profundidade pela esquerda. O norte-americano cortou para dentro e arrematou para o fundo do gol de Nestor. O tento foi largamente aplaudido pela torcida presente à Chácara da Floresta.

Fim de jogo. Final da primeira partida internacional da história do São Paulo, e como não poderia deixar de ser, em grande estilo e ótima vitória. A Seleção dos Estados Unidos, depois, cancelou a partida contra a Seleção Paulista sem mesmo avisar o contratante, pressionada pela FIFA e CBD, e partiu para o Rio de Janeiro.

 

10.08.1930

Amistoso Internacional
São Paulo (SP) Estádio São Paulo Futebol Clube - Chácara da Floresta
SÃO PAULO Futebol Clube (SP) 5 X 3 Seleção dos ESTADOS UNIDOS

Árbitro: Attílio Grimaldi

SPFC: Nestor; Clodô (capitão) e Barthô; Milton, Bino e Abate; Luizinho, Siriri, Friedenreich, Armandinho e Romeu. Técnico: Ramón Platero

Gols: Armandinho, 30s/1; Friedenreich, 9/1; Friedenreich, 17/1; Friedenreich, 21/1; Romeu, 15/2        

EUA: James Douglas; Alexander Wood e George Moorhouse (Frank Vaughan); James Gallagher, William Gonçalves e Andrew Auld; James Brown, Mike Bookie, Bert Patenaude, Arnie Oliver e Tom Florie (capitão). Técnico: Bob Miller    

Gols: Patenaude, 6/1; Brown, 33/1; Patenaude, 18/2